segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O papel da escola no desenvolvimento da criatividade

Eunice M. L. Soriano de Alencar

É necessário cultivar as sementes de criatividade que existem em todo ser humano por meio de um ambiente rico em estímulos e desafios
Várias são as razões que tornam importante cultivar a criatividade e desenvolvê-la de forma mais plena ao longo da vida. Uma delas é o reconhecimento de que a necessidade de criar é uma parte saudável do ser humano, sendo a atividade criativa acompanhada de sentimentos de satisfação e prazer, elementos fundamentais para o bem-estar emocional. Uma segunda razão diz respeito ao cenário atual, caracterizado por incerteza, complexidade, progresso e mudanças, com inúmeros desafios e problemas imprevisíveis que requerem soluções criativas. Uma terceira refere-se ao fato de que sufocar o desenvolvimento do potencial criador equivale a limitar as possibilidades de uma realização plena e a expressão de talentos diversos (Alencar, 2007).

Embora se reconheça a importância da criatividade e a necessidade de assegurar o seu desenvolvimento, constata-se que ela tem sido negligenciada nos diferentes níveis de ensino. Muitos são os fatores que contribuem para tal situação. Alguns desses fatores referem-se a valores profundamente arraigados no contexto sociocultural. Outros espelham a cultura da escola, na qual a pressão ao conformismo ocupa um lugar central. Outros ainda refletem a formação limitada de um número expressivo de professores no que diz respeito a procedimentos a serem utilizados para incrementar condições favoráveis ao desenvolvimento do potencial criador. Observam-se, além disso, diversos mitos a respeito da criatividade, que estão presentes entre educadores e na sociedade em geral.

Quanto aos primeiros, poder-se-ia citar a resistência à mudança e à introdução de inovações presente em diversos setores da sociedade, incluindo a instituição escolar. Um exemplo dessa resistência ocorreu na escrita Braille para cegos. Sabe-se que Louis Braille desenvolveu um método inédito de escrita e, mesmo tendo-o testado por cinco anos com sucesso, não conseguiu introduzi-lo nas escolas para cegos. Houve forte oposição por parte dessas instituições, visto que a introdução do método Braille exigiria treinamento dos professores, o que não era do interesse de seus diretores e docentes. Houve também resistência por parte das editoras que publicavam livros para cegos. Somente anos após a morte de Louis Braille é que o seu método foi adotado (Smith, 1966).

A cultura institucional predominante em muitas escolas também se caracteriza pela pressão junto a professores que buscam inovar suas práticas pedagógicas, dificultando-lhes ou inclusive impedindo-os de colocar em prática um ensino que se caracteriza pela promoção da criatividade. Tal pressão às vezes é verbalizada pelos pares ou por diretores de escolas, que ditam as normas de como o professor deve proceder em sala de aula, com ênfase na uniformidade do comportamento docente. Isso faz com que os professores acomodem-se à rotina escolar, reduzindo o seu entusiasmo e anseio por processos de ensino criativo.

Quanto às práticas educacionais, que limitam o desenvolvimento do potencial criador, apontam-se, entre outras:
  • ensino voltado para o passado, enfatizando-se especialmente a reprodução e a memorização do conteúdo ensinado;
  • prática de exercícios que admitem apenas uma única resposta, fortalecendo-se a dicotomia entre certo e errado;
  • destaque à incompetência, à ignorância e à incapacidade do aluno, deixando de informá-lo e elogiá-lo a respeito de seus “pontos fortes”;
  • desenvolvimento de um número limitado de habilidades cognitivas, com poucas oportunidades para
  • o desenvolvimento de habilidades de análise, síntese e avaliação;
  • ênfase em obediência, passividade, dependência e conformismo às regras de conduta em sala de aula;
  • pouco estímulo a padrões de comportamento caracterizados por autonomia, curiosidade, iniciativa e persistência;
  • padronização do conteúdo aliada ao pressuposto de que todos devem aprender no mesmo ritmo e da mesma maneira.
Diversos mitos a respeito da criatividade observados na sociedade também estão presentes na instituição escolar, dificultando a promoção de condições adequadas ao desenvolvimento da capacidade de criar. É comum, por exemplo, conceber a criatividade como um talento natural, presente apenas em poucos indivíduos, assim como a crença de que a expressão criativa não depende das condições ambientais. Predomina, assim, uma concepção unilateral da criatividade como um fenômeno de caráter intrapsíquico, subestimando-se a influência da escola e da sociedade em seu desenvolvimento e em sua expressão.

Também é comum a consideração da criatividade como um fenômeno mágico e misterioso, ou como um processo reduzido apenas ao momento de “eureka”. Observa-se ainda o desconhecimento do importante papel de uma base sólida de conhecimento em paralelo à desconsideração da motivação e do esforço para a produção criativa. Bloqueia-se a criatividade por ser considerada como um fenômeno raro e extraordinário, segregado em domínios especializados, como artes e invenções.

Estratégias para a promoção da criatividade no contexto educacional
A criatividade manifesta-se de diversas formas, e não apenas no trabalho do artista ou do cientista. Ela permeia as mais variadas atividades humanas, expressando-se em diferentes esferas, níveis e contextos. Entretanto, em algumas áreas ou setores, níveis mais elevados de criatividade são necessários. Por outro lado, mesmo atividades que requerem criatividade podem incluir tarefas rotineiras que exigem o seguimento de regras. Isso ocorre na sala de aula, cuja dinâmica abrange atividades que são distintas e que têm objetivos diversos.

Nesse sentido, Uano (2002, p. 275) lembra: “No processo educativo que tem lugar em sala de aula, há momentos em que se reforça a assimilação; outros nos quais predominam a flexibilidade e a criatividade; outros nos quais se desperta o sentido crítico. Em alguns momentos, os alunos escutam; em outros, opinam e apresentam seus pontos de vista e experiências; ainda em outros utilizam sua criatividade em um projeto especial. Na sala de aula, há momentos de ordem e silêncio e outros de produtividade”.

Inúmeras são as práticas pedagógicas que o professor pode utilizar para favorecer o desenvolvimento do potencial criador. A título de ilustração, apresentarei, a seguir, algumas delas. Sugiro que o professor reflita a respeito de seus procedimentos docentes, da extensão em que tem promovido o desenvolvimento da capacidade de criar de seus alunos, das práticas aqui apresentadas, incorporando aquelas que considere mais apropriadas para facilitar a aprendizagem e o desenvolvimento integral dos alunos. Sugiro também que vislumbre novas estratégias ou procedimentos que possam ser incorporados para que a sala de aula torne-se um local prazeroso, instigante e promotor de experiências significativas.
  1. Não se restrinja a exercícios e atividades que possibilitem uma única resposta correta. 
  2. Valorize as ideias originais de seus alunos.
  3. Uma ideia original é apenas o primeiro passo. Lembre os alunos da importância de refinar as ideias criativas.
  4. Encoraje os alunos a apresentar e defender suas ideias.
  5. Acentue o que cada aluno tem de melhor, conscientizando-os sobre os seus “pontos fortes”.
  6. Desenvolva atividades que requeiram iniciativa e independência por parte dos alunos.
  7. Estimule a curiosidade dos alunos por meio das tarefas propostas em sala de aula.
  8. Faça perguntas desafiadoras, que motivem os alunos a raciocinar.
  9. Dê tempo aos alunos para pensar e desenvolver ideias novas.
  10. Dê chances aos alunos para discordar de seus pontos de vista.
  11. Diversifique as metodologias de ensino utilizadas em sala de aula.
  12. Instigue os alunos a ter confiança em suas competências e capacidades.
  13. Exponha os alunos apenas a críticas construtivas.
  14. Disponibilize aos alunos vários tipos de tarefas que requeiram tanto o uso do pensamento criativo quanto o de outras habilidades, como análise, síntese e avaliação.
  15. Ajude os alunos a se libertar do medo de cometer erros, manifestando respeito por suas ideias, questões e produções. 
  16. Proteja as produções dos alunos da crítica destrutiva e das gozações dos colegas.
  17. Reconheça que a criatividade incorpora uma variedade de processos (resolução de problemas, pensamento divergente, pensamento convergente) e diversos fatores motivacionais e pessoais, como autoconfiança e curiosidade.
  18. Elogie os esforços e a persistência de seus alunos na realização das tarefas propostas.
  19. Incentive os alunos a ampliar o conhecimento sobre tópicos que sejam do interesse deles.
  20. Cultive em sala de aula um clima de descontração, afeto, compreensão e confiança, de modo que os alunos sintam-se à vontade para compartilhar ideias e questionar.  

Lembre-se de que os alunos expressam as suas habilidades criativas mais plenamente quando realizam atividades que lhes dão prazer; portanto, manter vivo o prazer de aprender deve ser alvo da atenção de todos os docentes. É relevante também que os alunos percebam em seus professores o prazer de aprender e ensinar o conteúdo das disciplinas sob sua responsabilidade.

Vale destacar o papel da direção e da equipe que trabalha na escola. Cabe ao gestor ajudar a promover condições que ajudem o professor a atuar de modo a facilitar o florescimento da criatividade em sala de aula. Nesse sentido, é importante:
  • encorajar os professores a experimentar novas práticas pedagógicas;
  • evitar sobrecarregar
  • o professor com tarefas pouco relacionadas às atividades docentes;
  • facilitar a comunicação entre os professores e a troca de experiências bem-sucedidas;
  • promover na escola um clima de respeito, confiança e estímulo ao trabalho docente;
  • compartilhar com os professores textos relacionados à criatividade e ao modo de fomentá-la na vida pessoal e profissional. 
Considerações finais
A educação para a criatividade não se restringe à escola ou à sala de aula. Existem outros fatores, além do professor e da instituição escolar, que contribuem para o desenvolvimento da capacidade de criar. Tanto características do indivíduo quanto condições presentes na família e no ambiente de trabalho, além de elementos da sociedade, como crenças e valores, têm impacto nesse desenvolvimento. Vários atributos pessoais — incluindo atitudes, interesses, motivações e traços de personalidade que predispõem o indivíduo a pensar de maneira independente, flexível e imaginativa — são desenvolvidos e modelados ao longo da vida, sofrendo influência dos diferentes ambientes em que o indivíduo foi socializado.

Nos primeiros anos, exercem influência os traços de personalidade dos pais, suas atitudes com relação à forma adequada de se criar filhos, suas expectativas com relação à criança, o grau de confiança em sua capacidade de explorar o mundo e de ser responsável, bem como o grau de aceitação e respeito pelos sentimentos, ideias, indagações e fantasias infantis.

É necessário cultivar as sementes de criatividade que existem em todo ser humano, propiciando-se um ambiente rico em estímulos e desafios e da prática de valorizar o trabalho do indivíduo e do grupo, reconhecer as potencialidades, respeitar as diferenças e oferecer oportunidade à produção e fertilização de ideias. Espero que este texto contribua para que o educador sinta-se inspirado a fazer uma diferença positiva na vida de seus alunos através de práticas pedagógicas que promovam a criatividade. Educar para a criatividade é educar para uma vida mais plena e mais feliz.
  • Eunice M. L. Soriano de Alencar é doutora em Psicologia, professora emérita e pesquisadora associada sênior do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB).

Crédito da imagem:
Foto: Yuganov Konstantin/Shutterstock.com
Revista Pátio

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