sábado, 4 de setembro de 2010

Aprendizagem superficial ou profunda

ABORDAGEM SUPERFICAL OU PROFUNDA DOS CONHECIMENTOS






Suzana Mesquita Moreira







A forma como os alunos abordam os conhecimentos e seu envolvimento nas tarefas propostas tem sido fonte de muita discussão entre os educadores, em especial daqueles envolvidos com as séries finais do ensino fundamental. Aceita a idéia de que seria um dos grandes objetivos do ensino de 5ª a 8ª série “o aprender a aprender”para poder prosseguir com sucesso na vida acadêmica, alguns questionamentos surgem como decorrentes disso:

“como fazer para que os alunos possam construir projetos próprios de aprendizagem? “como garantir o envolvimento com as situações de ensino? “como romper com a cultura da facilidade e da aparente contradição entre prazer e trabalho?

Pode-se tentar responder a essas e outras questões com vários enfoques. Um mais tradicional responsabiliza os alunos e as questões sociais, ambientais, conjunturais e culturais pelo pouco envolvimento dos alunos. Sem querer desprezar essas abordagens, precisamos olhar essa questão de forma mais complexa, multicausal, que não coloque a nós educadores imobilizados,mas sim desafiados.

Uma colaboração importante tem sido apontada por Sole, Isabel e por Entwistle, N, J ao fazerem uma distinção as condições para uma aprendizagem superficial e para uma aprendizagem profunda. Ao contrário das abordagens mais convencionais, sustentam esses autores que a disponibilidade para aprender de forma profunda pode se dar nas situações didáticas.

Definem o enfoque profundo como “intenção de compreender; forte interação com o conteúdo; relação de novas idéias com o conhecimento anterior; relação de conceitos com a experiência cotidiana; relação de dados com conclusões; exame da lógica dos argumentos.”. Já o enfoque superficial “se caracteriza pela intenção de cumprir os requisitos da tarefa; memorização da informação necessária para as provas ou exames; a tarefa é encarada como imposição externa; ausência de reflexão sobre os propósitos ou estratégia; foco em elementos soltos, sem integração; os princípios não são distinguidos a partir dos exemplos (Entwistle, 1998)”.

Ou seja, enquanto na abordagem profunda se relaciona à aprendizagem dos conteúdos que suprem uma necessidade ( de saber, de realizar, de informar-ser, de aprofundar-se), a abordagem superficial centra-se na realização das tarefas (buscar respostas certas). Sustentam os autores que esses enfoques são aprendidos ou comunicados nas situações de ensino, que funcionariam como os contextos físicos onde os protagonistas constroem contexto percebido do que deve ser valorado.

Como esses enfoques vão sendo construídos?

A abordagem superficial é acentuada nas situações em se favorece muito mais a dependência externa, ao contrário da abordagem profunda onde saber o que se vai fazer e o papel das tarefas dentro do contexto de aprendizagem é fundamental para que o aluno construa um projeto próprio de aprendizagem. Tomar decisões racionais sobre o planejamento de seu trabalho (responsabilizando-se por ele) é indispensável para a abordagem profunda dos conteúdos, ao contrário na perspectiva superficial onde o detalhamento de tarefas sem conexão com o que se está aprendendo acabam favorecendo um projeto de buscar apenas respostas adequadas.

A questão do tempo é outra variável importante para a construção de uma ou de outra abordagem. O pouco tempo dedicado ao conteúdo apresentado como lista de tópicos leva ao recurso mais fácil, a memorização: não há tempo para o aprofundamento. A passagem de um professor ao outro, de tarefas a outras sem soluções de continuidade também contribuem para a abordagem mais superficial.

Outro aspecto importante é quanto ao tratamento dado às avaliações> As situações rituais , as perguntas de caráter fechado se contrapõe às situações onde os critérios são compartilhados (para que os alunos construam um projeto próprio de aprendizagem) e ajudem no processo de autoregulação. Um ambiente “ecológico”que gira em torno do conhecimento também facilita a elaboração de enfoques profundos. Faz parte dessa idéia da perpecstiva ecológica os diferentes materiais trazidos, a circulação da informação, as ponte com o conhecimento produzido pela humanidade.

Enfim, se quisermos que nossos alunos possam abordar de forma mais profunda e com mais complexidade os conhecimentos é necessário:



 Garantir um ambiente com circulação de informação com variadas fontes;

 Centrar-se no conteúdo a ser elaborado (reelaborando) e muito menos nas tarefas (essas existem em função do conteúdo);

 Explicitação de critérios de avaliação;

 Explicitação dos diferentes objetos de estudo com questões dos alunos e contribuição de planejamento de sua abordagem;

 Garantir o tempo necessário para as situações de aprendizagem;

 Possibilitar uma interação maior entre as diferentes áreas de conhecimento.

Um comentário:

  1. Su, excelente artigo sobre conhecimento superfical e profundo!
    Eu que estou com os pequenos diria que essa abordagem frente a aquisição dos conhecimentos dialoga com a abordagem reggiana quando se trata da Educação Infantil. A criança desde muito cedo ao relacionar-se com o outro, consigo e com os objetos do conhecimento, revela sua curiosidade, desejo de aprender e intencionalidade em aprofundar diante de temas que despertam maior interesse. Garantir tempo e espaço na primeira infância para o aprofundamento é fundamental, para tanto, o currículo da Educação Infantil deve ser aberto e orgânico, pois a fragmentação das áreas tira da criança o que ela sabe fazer melhor, olhar o objetos do conhecimento de forma integrada.
    Escolher desde a educação infantil o que se quer conhecer e aprofundar, ter tempo para as experiências que dialogam com as linguagens, ter educadores que dominem os conteúdos, conseguindo ajudar as crianças em seus focos são elementos fundamentais nesse processo que se inicia muito antes do ensino fundamental.
    Su adorei seu artigo e vou divulgá-lo!

    bjo grande!

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