segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O papel da escola no desenvolvimento da criatividade

Eunice M. L. Soriano de Alencar

É necessário cultivar as sementes de criatividade que existem em todo ser humano por meio de um ambiente rico em estímulos e desafios
Várias são as razões que tornam importante cultivar a criatividade e desenvolvê-la de forma mais plena ao longo da vida. Uma delas é o reconhecimento de que a necessidade de criar é uma parte saudável do ser humano, sendo a atividade criativa acompanhada de sentimentos de satisfação e prazer, elementos fundamentais para o bem-estar emocional. Uma segunda razão diz respeito ao cenário atual, caracterizado por incerteza, complexidade, progresso e mudanças, com inúmeros desafios e problemas imprevisíveis que requerem soluções criativas. Uma terceira refere-se ao fato de que sufocar o desenvolvimento do potencial criador equivale a limitar as possibilidades de uma realização plena e a expressão de talentos diversos (Alencar, 2007).

Embora se reconheça a importância da criatividade e a necessidade de assegurar o seu desenvolvimento, constata-se que ela tem sido negligenciada nos diferentes níveis de ensino. Muitos são os fatores que contribuem para tal situação. Alguns desses fatores referem-se a valores profundamente arraigados no contexto sociocultural. Outros espelham a cultura da escola, na qual a pressão ao conformismo ocupa um lugar central. Outros ainda refletem a formação limitada de um número expressivo de professores no que diz respeito a procedimentos a serem utilizados para incrementar condições favoráveis ao desenvolvimento do potencial criador. Observam-se, além disso, diversos mitos a respeito da criatividade, que estão presentes entre educadores e na sociedade em geral.

Quanto aos primeiros, poder-se-ia citar a resistência à mudança e à introdução de inovações presente em diversos setores da sociedade, incluindo a instituição escolar. Um exemplo dessa resistência ocorreu na escrita Braille para cegos. Sabe-se que Louis Braille desenvolveu um método inédito de escrita e, mesmo tendo-o testado por cinco anos com sucesso, não conseguiu introduzi-lo nas escolas para cegos. Houve forte oposição por parte dessas instituições, visto que a introdução do método Braille exigiria treinamento dos professores, o que não era do interesse de seus diretores e docentes. Houve também resistência por parte das editoras que publicavam livros para cegos. Somente anos após a morte de Louis Braille é que o seu método foi adotado (Smith, 1966).

A cultura institucional predominante em muitas escolas também se caracteriza pela pressão junto a professores que buscam inovar suas práticas pedagógicas, dificultando-lhes ou inclusive impedindo-os de colocar em prática um ensino que se caracteriza pela promoção da criatividade. Tal pressão às vezes é verbalizada pelos pares ou por diretores de escolas, que ditam as normas de como o professor deve proceder em sala de aula, com ênfase na uniformidade do comportamento docente. Isso faz com que os professores acomodem-se à rotina escolar, reduzindo o seu entusiasmo e anseio por processos de ensino criativo.

Quanto às práticas educacionais, que limitam o desenvolvimento do potencial criador, apontam-se, entre outras:
  • ensino voltado para o passado, enfatizando-se especialmente a reprodução e a memorização do conteúdo ensinado;
  • prática de exercícios que admitem apenas uma única resposta, fortalecendo-se a dicotomia entre certo e errado;
  • destaque à incompetência, à ignorância e à incapacidade do aluno, deixando de informá-lo e elogiá-lo a respeito de seus “pontos fortes”;
  • desenvolvimento de um número limitado de habilidades cognitivas, com poucas oportunidades para
  • o desenvolvimento de habilidades de análise, síntese e avaliação;
  • ênfase em obediência, passividade, dependência e conformismo às regras de conduta em sala de aula;
  • pouco estímulo a padrões de comportamento caracterizados por autonomia, curiosidade, iniciativa e persistência;
  • padronização do conteúdo aliada ao pressuposto de que todos devem aprender no mesmo ritmo e da mesma maneira.
Diversos mitos a respeito da criatividade observados na sociedade também estão presentes na instituição escolar, dificultando a promoção de condições adequadas ao desenvolvimento da capacidade de criar. É comum, por exemplo, conceber a criatividade como um talento natural, presente apenas em poucos indivíduos, assim como a crença de que a expressão criativa não depende das condições ambientais. Predomina, assim, uma concepção unilateral da criatividade como um fenômeno de caráter intrapsíquico, subestimando-se a influência da escola e da sociedade em seu desenvolvimento e em sua expressão.

Também é comum a consideração da criatividade como um fenômeno mágico e misterioso, ou como um processo reduzido apenas ao momento de “eureka”. Observa-se ainda o desconhecimento do importante papel de uma base sólida de conhecimento em paralelo à desconsideração da motivação e do esforço para a produção criativa. Bloqueia-se a criatividade por ser considerada como um fenômeno raro e extraordinário, segregado em domínios especializados, como artes e invenções.

Estratégias para a promoção da criatividade no contexto educacional
A criatividade manifesta-se de diversas formas, e não apenas no trabalho do artista ou do cientista. Ela permeia as mais variadas atividades humanas, expressando-se em diferentes esferas, níveis e contextos. Entretanto, em algumas áreas ou setores, níveis mais elevados de criatividade são necessários. Por outro lado, mesmo atividades que requerem criatividade podem incluir tarefas rotineiras que exigem o seguimento de regras. Isso ocorre na sala de aula, cuja dinâmica abrange atividades que são distintas e que têm objetivos diversos.

Nesse sentido, Uano (2002, p. 275) lembra: “No processo educativo que tem lugar em sala de aula, há momentos em que se reforça a assimilação; outros nos quais predominam a flexibilidade e a criatividade; outros nos quais se desperta o sentido crítico. Em alguns momentos, os alunos escutam; em outros, opinam e apresentam seus pontos de vista e experiências; ainda em outros utilizam sua criatividade em um projeto especial. Na sala de aula, há momentos de ordem e silêncio e outros de produtividade”.

Inúmeras são as práticas pedagógicas que o professor pode utilizar para favorecer o desenvolvimento do potencial criador. A título de ilustração, apresentarei, a seguir, algumas delas. Sugiro que o professor reflita a respeito de seus procedimentos docentes, da extensão em que tem promovido o desenvolvimento da capacidade de criar de seus alunos, das práticas aqui apresentadas, incorporando aquelas que considere mais apropriadas para facilitar a aprendizagem e o desenvolvimento integral dos alunos. Sugiro também que vislumbre novas estratégias ou procedimentos que possam ser incorporados para que a sala de aula torne-se um local prazeroso, instigante e promotor de experiências significativas.
  1. Não se restrinja a exercícios e atividades que possibilitem uma única resposta correta. 
  2. Valorize as ideias originais de seus alunos.
  3. Uma ideia original é apenas o primeiro passo. Lembre os alunos da importância de refinar as ideias criativas.
  4. Encoraje os alunos a apresentar e defender suas ideias.
  5. Acentue o que cada aluno tem de melhor, conscientizando-os sobre os seus “pontos fortes”.
  6. Desenvolva atividades que requeiram iniciativa e independência por parte dos alunos.
  7. Estimule a curiosidade dos alunos por meio das tarefas propostas em sala de aula.
  8. Faça perguntas desafiadoras, que motivem os alunos a raciocinar.
  9. Dê tempo aos alunos para pensar e desenvolver ideias novas.
  10. Dê chances aos alunos para discordar de seus pontos de vista.
  11. Diversifique as metodologias de ensino utilizadas em sala de aula.
  12. Instigue os alunos a ter confiança em suas competências e capacidades.
  13. Exponha os alunos apenas a críticas construtivas.
  14. Disponibilize aos alunos vários tipos de tarefas que requeiram tanto o uso do pensamento criativo quanto o de outras habilidades, como análise, síntese e avaliação.
  15. Ajude os alunos a se libertar do medo de cometer erros, manifestando respeito por suas ideias, questões e produções. 
  16. Proteja as produções dos alunos da crítica destrutiva e das gozações dos colegas.
  17. Reconheça que a criatividade incorpora uma variedade de processos (resolução de problemas, pensamento divergente, pensamento convergente) e diversos fatores motivacionais e pessoais, como autoconfiança e curiosidade.
  18. Elogie os esforços e a persistência de seus alunos na realização das tarefas propostas.
  19. Incentive os alunos a ampliar o conhecimento sobre tópicos que sejam do interesse deles.
  20. Cultive em sala de aula um clima de descontração, afeto, compreensão e confiança, de modo que os alunos sintam-se à vontade para compartilhar ideias e questionar.  

Lembre-se de que os alunos expressam as suas habilidades criativas mais plenamente quando realizam atividades que lhes dão prazer; portanto, manter vivo o prazer de aprender deve ser alvo da atenção de todos os docentes. É relevante também que os alunos percebam em seus professores o prazer de aprender e ensinar o conteúdo das disciplinas sob sua responsabilidade.

Vale destacar o papel da direção e da equipe que trabalha na escola. Cabe ao gestor ajudar a promover condições que ajudem o professor a atuar de modo a facilitar o florescimento da criatividade em sala de aula. Nesse sentido, é importante:
  • encorajar os professores a experimentar novas práticas pedagógicas;
  • evitar sobrecarregar
  • o professor com tarefas pouco relacionadas às atividades docentes;
  • facilitar a comunicação entre os professores e a troca de experiências bem-sucedidas;
  • promover na escola um clima de respeito, confiança e estímulo ao trabalho docente;
  • compartilhar com os professores textos relacionados à criatividade e ao modo de fomentá-la na vida pessoal e profissional. 
Considerações finais
A educação para a criatividade não se restringe à escola ou à sala de aula. Existem outros fatores, além do professor e da instituição escolar, que contribuem para o desenvolvimento da capacidade de criar. Tanto características do indivíduo quanto condições presentes na família e no ambiente de trabalho, além de elementos da sociedade, como crenças e valores, têm impacto nesse desenvolvimento. Vários atributos pessoais — incluindo atitudes, interesses, motivações e traços de personalidade que predispõem o indivíduo a pensar de maneira independente, flexível e imaginativa — são desenvolvidos e modelados ao longo da vida, sofrendo influência dos diferentes ambientes em que o indivíduo foi socializado.

Nos primeiros anos, exercem influência os traços de personalidade dos pais, suas atitudes com relação à forma adequada de se criar filhos, suas expectativas com relação à criança, o grau de confiança em sua capacidade de explorar o mundo e de ser responsável, bem como o grau de aceitação e respeito pelos sentimentos, ideias, indagações e fantasias infantis.

É necessário cultivar as sementes de criatividade que existem em todo ser humano, propiciando-se um ambiente rico em estímulos e desafios e da prática de valorizar o trabalho do indivíduo e do grupo, reconhecer as potencialidades, respeitar as diferenças e oferecer oportunidade à produção e fertilização de ideias. Espero que este texto contribua para que o educador sinta-se inspirado a fazer uma diferença positiva na vida de seus alunos através de práticas pedagógicas que promovam a criatividade. Educar para a criatividade é educar para uma vida mais plena e mais feliz.
  • Eunice M. L. Soriano de Alencar é doutora em Psicologia, professora emérita e pesquisadora associada sênior do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB).

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Foto: Yuganov Konstantin/Shutterstock.com
Revista Pátio

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segunda-feira, 18 de julho de 2016




texto publicado na Revista Pátio 78 (2016)


  A importância do equilíbrio entre compartilhar e personalizar

José Moran

É na síntese dinâmica da aprendizagem personalizada e colaborativa que desenvolvemos todo o nosso potencial como pessoas e como grupos sociais
A  aprendizagem constrói-se em um processo equilibrado entre a elaboração coletiva (por meio de múltiplas formas de colaboração em diversos grupos) e a personalizada (em que cada um percorre roteiros diferenciadores). A aprendizagem acontece no movimento fluido, constante e intenso entre a comunicação grupal e pessoal, entre a colaboração com pessoas motivadas e o diálogo consigo mesmo, com todas as instâncias que o compõem e definem, em uma reelaboração permanente.

Em um mundo tão dinâmico, de múltiplas linguagens, telas, grupos e culturas, cada um de nós precisa — junto com todas as interações sociais — encontrar tempo para aprofundar, refletir, reelaborar, produzir e fazer novas sínteses. É na síntese dinâmica da aprendizagem personalizada e colaborativa que desenvolvemos todo o nosso potencial como pessoas e como grupos sociais, ao enriquecer-nos mutuamente com as múltiplas interfaces do diálogo dentro de cada um, alimentando e alimentados pelos diálogos com os diversos grupos dos quais participamos, com a intensa troca de ideias, sentimentos e competências em múltiplos desafios que nos oferece a vida.

As instituições mais inovadoras propõem modelos educacionais mais integrados, sem disciplinas. Organizam o projeto pedagógico a partir de valores, competências amplas, problemas e projetos, equilibrando a aprendizagem individualizada com a colaborativa; redesenhando os espaços físicos e combinando-os aos virtuais com apoio das tecnologias digitais. As atividades podem ser muito mais diversificadas, com metodologias mais ativas, que combinem o melhor do percurso individual e grupal.

As tecnologias móveis e em rede permitem conectar todos os espaços e elaborar políticas diferenciadas de organização de processos de ensino e aprendizagem adaptados a cada situação, ou seja, aos que são mais proativos e aos mais passivos; aos muito rápidos e aos mais lentos; aos que precisam de muita tutoria e acompanhamento e aos que sabem aprender sozinhos.

Conviveremos, nos próximos anos, com modelos ativos não disciplinares e disciplinares com diferentes graus de “misturas”, de flexibilização, de hibridização. Isso exige uma mudança de configuração do currículo, da participação dos professores, da organização das atividades didáticas e da organização dos espaços e do tempo. As metodologias precisam acompanhar os objetivos pretendidos. Se desejamos que os alunos sejam proativos, precisamos adotar metodologias nas quais eles se envolvam em atividades cada vez mais complexas, em que tenham de tomar decisões e avaliar os resultados, com apoio de materiais relevantes.

Se desejamos que sejam criativos, eles precisam experimentar novas possibilidades de mostrar sua iniciativa. Desafios e atividades podem ser dosados, planejados, acompanhados e avaliados com apoio das tecnologias. Os desafios bem planejados contribuem para mobilizar as competências desejadas, sejam elas intelectuais, emocionais, pessoais e comunicacionais. Tais desafios exigem pesquisar, avaliar situações, analisar diferentes pontos de vista, fazer escolhas, assumir alguns riscos, aprender pela descoberta, transitar do simples para o complexo.

Nas metodologias ativas de aprendizagem, o aprendizado ocorre a partir da antecipação, durante o curso, de problemas e situações reais, os mesmos que os alunos vivenciarão na vida profissional. Podemos oferecer propostas mais personalizadas, para cada estilo predominante de aprendizagem, monitorando-as e avaliando-as em tempo real, o que não era possível na educação mais massiva ou convencional.

Os alunos mais pragmáticos preferirão atividades diferentes daquelas escolhidas pelos colegas mais teóricos ou conceituais, e a ênfase nas atividades também será distinta. É possível planejar atividades variadas para grupos de alunos diferentes, em ritmos distintos e com possibilidade real de acompanhamento pelos professores. Esses recursos mapeiam, monitoram, facilitam e interaprendem com a prática e a experiência (Siemens, 2005).

Hoje, há um grande avanço na análise dos metadados, na geração de relatórios personalizados, no desenvolvimento de plataformas adaptativas e aplicativos que orientam os professores a respeito de como cada aluno aprende, em que estágio se encontra e o que o motiva mais (Gomes, 2013). A escola pode integrar-se aos espaços significativos da cidade e do mundo pelo contato físico e digital: centros produtivos, comerciais e culturais (museus, cinemas, teatros, parques, praças, ateliês), entre outros. Também podem organizar os currículos com atividades profissionais ou sociais, com apoio da comunidade, além de todos os ambientes virtuais disponíveis.

Um dos muitos modelos interessantes para pensar como organizar de modo diferente a “sala de aula” é olhar para algumas escolas inovadoras. Por exemplo, os projetos das escolas Summit (Summit Schools) da Califórnia1 equilibram tempos de atividades individuais com as de grupo, sob a supervisão de dois professores de áreas diferentes (humanas e exatas), que se preocupam com projetos que permitam olhares abrangentes, integradores e interdisciplinares. Acompanham o progresso de cada aluno (toda sexta-feira conversam individualmente com cada um), o qual tem um mentor que o orienta em seu projeto de vida.

Os estudantes fazem avaliações quando se sentem preparados. As competências socioemocionais são bastante enfatizadas, assim como o desenvolvimento de atividades e projetos em organizações fora das escolas. O ambiente físico das salas de aula e da escola como um todo também foi redesenhado por essas instituições mais inovadoras, passando a ser mais centrado no aluno. As salas de aula são multifuncionais, combinando facilmente tanto atividades de grupo e de plenário quanto individuais. Os ambientes estão cada vez mais adaptados para o uso das tecnologias móveis.

Graças a essas tecnologias móveis, os modelos de problemas e projetos são mais híbridos. Uma parte das atividades é realizada no ambiente virtual e outra de modo presencial. Também há maior flexibilidade para reuniões virtuais ou presenciais. O modelo híbrido é muito importante para aqueles que trabalham com problemas e projetos.

Os alunos, por sua vez, estudam os conteúdos em casa ou onde preferirem. São disponibilizados, em uma plataforma on-line, vídeos, textos e um conjunto de atividades às quais eles devem dedicar-se antes de ir à aula. Essas tarefas são de dois tipos: fixação e garantia de compreensão do conteúdo; problematização que estimula a pesquisa e a transposição do conhecimento para problemas reais. Com isso, o tempo em sala de aula é usado para que os temas sejam debatidos de maneira mais aprofundada, incluindo a realização dos projetos do semestre. Na educação formal, alguns projetos pedagógicos atribuem maior ênfase à aprendizagem grupal, enquanto outros valorizam mais a aprendizagem individualizada. Ambos são importantes e precisam ser integrados para dar conta da complexidade de aprender em uma sociedade cada vez mais dinâmica e incerta.

Em um mundo de tantas informações, oportunidades e caminhos, a qualidade da docência manifesta-se na combinação do trabalho em grupo com a personalização, bem como no incentivo à colaboração entre todos e, ao mesmo tempo, a que cada um possa personalizar seu percurso. As tecnologias Web 2.0, que são gratuitas, facilitam a aprendizagem colaborativa entre colegas próximos e distantes. Adquire maior importância a comunicação entre pares, entre iguais, de alunos entre si, que trocam informações, participam de atividades em conjunto, resolvem desafios, realizam projetos e avaliam-se mutuamente. Fora da escola, acontece o mesmo processo: a comunicação entre grupos — nas redes sociais — que compartilham interesses, vivências, pesquisas e aprendizagens.

A educação cada vez mais se horizontaliza, expressando-se em múltiplas interações grupais e personalizadas. A comunicação por meio da colaboração também se complementa com a comunicação um a um, com a personalização pelo diálogo do professor com cada aluno e seu projeto, com a orientação e o acompanhamento do seu ritmo. Podemos oferecer sequências didáticas mais personalizadas, monitorá-las e avaliá-las em tempo real, com o apoio de plataformas adaptativas, o que não era possível na educação mais formal. Com isso, o professor conversa, orienta seus alunos de maneira mais direta, no momento em que precisam e da forma mais conveniente.

Sozinhos, vamos até certo ponto; juntos, também. Essa interconexão entre a aprendizagem pessoal e colaborativa, em um movimento contínuo e ritmado, ajuda-nos a avançar muito além do que conseguiríamos sozinhos ou apenas em grupo. Os projetos pedagógicos inovadores conciliam, na organização curricular, espaços, tempos e projetos que equilibram a comunicação pessoal e colaborativa, presencial e on-line. O papel ativo do professor como designer de caminhos, de atividades individuais e de grupo, é decisivo. O professor torna-se gestor e orientador de caminhos coletivos e individuais, previsíveis e imprevisíveis, em uma construção mais aberta, criativa e empreendedora.

O que a tecnologia traz hoje é integração de todos os espaços e tempos. Os atos de ensinar e aprender acontecem em uma interligação simbiótica, profunda e constante entre o mundo físico e digital. Não são dois mundos ou espaços, mas um espaço estendido, uma sala de aula ampliada, que se mescla e hibridiza constantemente. Por isso, a educação formal é cada vez mais blended, misturada, híbrida, porque não acontece apenas no espaço físico da sala de aula, mas também nos múltiplos espaços do cotidiano, que incluem os digitais. O professor precisa seguir comunicando-se face a face com os alunos, mas também deve fazê-lo digitalmente, com as tecnologias móveis, equilibrando a interação com todos e com cada um.

O digital facilita e amplia os grupos e comunidades de práticas, de saberes, de coautores. O aluno pode ser produtor de informação, coautor com seus colegas e professores, reelaborando materiais em grupo, contando histórias (storytelling), debatendo ideias em um fórum, divulgando seus resultados em um ambiente de webconferência, blog ou página da web. Essa mescla entre sala de aula e ambientes virtuais é fundamental para abrir a escola para o mundo e trazer o mundo para dentro da instituição. Outra mescla ou blended é aquela entre processos de comunicação mais planejados, organizados e formais e aqueles mais abertos, como os que acontecem nas redes sociais, em que há uma linguagem mais familiar, maior espontaneidade e fluência constante de imagens, ideias e vídeos.

Todas as escolas podem implementar o ensino híbrido, misturado — tanto aquelas que dispõem de uma infraestrutura tecnológica sofisticada quanto as mais carentes. Todos os professores também podem fazer isso!2

NOTAS
1. Leia mais sobre as Summit Schools na Entrevista. 

2. Este artigo é uma adaptação do Capítulo 1 do livro Ensino híbrido: personalização e tecnologia na educação (Penso, 2015).
  • José Moran é doutor em Comunicação, professor aposentado de Novas Tecnologias e fundador da Escola do Futuro da Universidade de São Paulo (USP). Atua no Grupo de Pesquisas em Educação Híbrida do Instituto Singularidades.

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Foto: Joseph Sohm/ShutterStock.com

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

  Século XXI - o foco é a aprendizagem



Podemos considerar que o grande foco do século XX na educação foi o ensino. Já  o século XXI  tem sido    marcado pela ênfase na aprendizagem(1).   Os avanços tecnológicos e sociais têm colaborado nesse aspecto. A tecnologia e a sua democratização tem quebrado alguns paradigmas. Hoje de qualquer lugar  se acessa a informação -que não é mais privilégio da escola.  Os ambientes de aprendizagem são múltiplos: se aprende na escola e fora dela. Os avanços sociais que permitiram uma ampliação maior ao acesso à escolarização de populações que estavam foram dela (alunos com diferentes necessidades especiais e sociais) traz o desafio de se pensar as diferentes formas de aprender de cada um. Se ainda no século XX era possível pensar em metodologias mais diretivas, hoje não é nem possível, nem desejável.


As novas gerações que chegam à escola são nativos digitais e da democracia- aprenderam que têm voz e querem ser ouvidos. Vejam por exemplo o que ocorreu com estudantes secundaristas do estado de SP no final de 2015. Isso traz alguns novos bons desafios para todos que lidam com educação. Alguns deles:

1- Sala de aula como espaço de aprendizagem . O que isso significa? Que tanto a disposição física como a organização das atividades devem propiciar que alunos possam realizar diferentes atividades - com graus diferentes de desafios.

2. Integração entre o tempo de aprendizagem em classe e tempo de aprendizagem fora da sala. Isso leva a pensar em diferentes formas de organização desses tempos e em especial o papel das lições de casa.Um exemplo disso , é  a sala de aula invertida - como articular esses tempos de aprendizagem?


3.  Voz e escolha dos alunos 
Para aprender é necessário a construção de um projeto de estudante - para quem, para onde, por que, como? Essas passam a ser perguntas que o educador  precisa levar em conta. Ser organizador de situações onde os alunos possam fazer escolhas tanto no âmbito na sala de aula como fora dela (no espaço escolar).


4. Foco no desenvolvimento de diferentes competências do século XXI
Situações de aprendizagem  que pressupõe o desenvolvimento através do uso  e da reflexão crítica de competências como a comunicação, a colaboração e outras competências sócio emocionais. Onde e como se desenvolve,por exemplo, a persistência? Quais situações de aprendizagem podem ser propostas com  esse objetivo? Muito mais do que uma lista padronizada de capacidades, o desafio das equipes escolares passa a ser se debruçar sobre características dos seus grupos para organizar as situações de aprendizagem.

5. Currículo autêntico
Escolhas que levem em conta problemas reais que para ser resolvidos necessitam que determinados conteúdos sejam aprendidos. As respostas aos problemas podem ser diferentes , assim como, os desafios colocados de forma a envolver os alunos no seu projeto de estudante.


6. Papel da informação
Numa sociedade com tanta informação como ajudar alunos a validar, comparar, criticar , selecionar informação? Com certeza esse é mais um dos desafios da educação do século XXI.


7. Papel do educador
Talvez , seja uma das grandes mudanças para uma cultura da aprendizagem. Assumir o papel de designer de situações de aprendizagem. Com certeza não é tarefa fácil, pois exigem diferentes tipos de saberes.

Essa lista não pretende esgotar todos os aspectos dos desafios que temos a enfrentar, mas sim , de apresentar algumas indicativas para aqueles que se colocam sempre num movimento de refletir sobre o que acontece na educação para buscar alternativas. Pretendo nos próximos posts explorar algumas delas com indicativas mais práticas.



Indicação de leitura

Educação para mudança: recriando a escola para adolescentes. A. Hargreaves. L Earl. Ryan. J - ARTMED
(em especial capítulo 9)


(1) Giesela Wajskp explora essas diferenças no vídeo Aprender a ensinar e ensinar a aprender
http://escoladacidade.org/bau/gisela-wajskop-ensinar-a-aprender-aprender-a-ensinar/


quarta-feira, 27 de janeiro de 2016


Acolher, conhecer e avaliar

Na década de 90, um filme propiciou vários debates entre os educadores: Ser e Ter (*). Nas várias cenas que se sucedem, uma com certeza marca a obra: o tempo utilizado pelo professor-protagonista para ouvir seus alunos. É uma escuta que busca conhecer para intervir.  Muitas vezes essa competência-habilidade que deveria acompanhar todo docente, é atropelada por outras tarefas. Observa-se , novamente nas orientações dadas aos professores no início de ano, uma carga grande nos diagnósticos -e não se trata aqui de desmerecê-los, mas será que para conhecer um aluno, não é necessário ir além disso? Christian Dunker(2) na obra que fez sucesso em 2015 "Mal-estar, sofrimento e sintoma"dedica-se logo no primeiro capítulo a discutir como a nossa sociedade tornou-se a sociedade dos diagnósticos em vários campos. É preciso, numa visão de escola, que contribua para que os alunos possam construir projetos de vida, que leve em conta não só conhecimentos ,mas sim uma visão mais ampla de desenvolvimento, tempo para receber nossas crianças e adolescentes nessa volta escola com um verdadeiro roteiro de atividades que nos ajude a recolher diferentes informações sobre aquele (s) que estarão conosco numa jornada. Conhecer pressupõe tempo para ouvir ou ler suas narrativas, o que nos conta sobre a sua história de vida e escolar? 

"Ver a aprendizagem como algo ligado à história de vida é entender que ela está situada em um contexto, e que também tem história - tanto em termos de histórias de vida dos indivíduos e histórias e trajetórias das instituições que oferecem oportunidades formais de aprendizagem como de histórias de comunidades e situações em que a aprendizagem informal se desenvolve "(3).
Trazer essas narrativas como momentos pensados  para conhecer o aluno e o grupo, para identificar seus interesses, seus aspectos mais desenvolvidos e aqueles que merecem atenção, pode ser feito de diferentes maneiras, como por exemplo, por uma seleção de imagens e fotos que os alunos trazem. Para além, de atividades específicas que devem fazer parte do roteiro (desde que os objetivos estejam bem claros para os alunos), poder pensar em atividades em que um "sujeito ou grupos de sujeitos"possam contar suas histórias, é algo importante a se garantir nesse começo do ano. Que tal começar com você, professor fazer esse exercício com você mesmo?

(1) filme "SER e TER""
(2) Mal-estar, sofrimento e sintoma. C.I. Dunker.Boitempo Editora. 2015.
(3) Goodson,I - Currículo, narrativa e futuro social. Revista Brasileira de Educação , n 35 maio/agosto 2007.

domingo, 17 de janeiro de 2016


Começo do ano: acolhida, adaptação, combinados  - Onde fica o aluno?

Tão logo se aproxima o início do ano letivo, aparecem nos materiais especializados e nas orientações pedagógicas,  uma série de prescrições sobre como receber os alunos. A tradição escolar também se incumbe dessa tarefa.
Lendo as diferentes publicações e refletindo sobre as práticas cotidianas das escolas, um questionamento não pode ser deixado de ser feito: onde fica o aluno em tudo isso? Onde está presente a sua voz?
Uma das discussões que as novas contribuições do campo pedagógico tem trazido é a necessidade de se construir nos projetos educativos um papel mais protagonista para os alunos (e para os docentes também).  No início do século XX, Korczak (1919/1984, p. 95)  ja dizia: 

E a nossa abordagem da infância, não seria reveladora do egocentrismo do adulto? Educados na escravatura, incapazes de transformar a vida, como poderÌamos dar liberdade aos nossos filhos? DeverÌamos, em primeiro lugar, libertar-nos das nossas próprias amarras.

É no início do século XXI (2) que os termos protagonismo e participação discente ganham mais folêgo e passam a ser alvo de elaborações teórico-práticas.  Hoje é muito mais comum encontrarmos essa intenção  nos projetos políticos pedagógicos  das escolas. Mas, quais são ações para que das intenções possa-se  passar para o exercício? Esses momentos de acolhida com certeza podem ser pensados nessa perspectiva.

Maria Teresa Estrela (1)  em "Os primeiros dias de aula"observa que o estabelecimento de normas /pricnípios de convivência escolar são podem ser  realizadas de forma enunciativa, impositiva ou propostiva. Essas atitudes que acompanham esses momentos, é na visão da autora, extremamente importante para o estabelecimento do código das relações que serão estabelecidas.


 O caráter enunciativo acompanha aquelas práticas (centradas na burocracia escolar) de apresentação de um conjunto de regras (muitas vezes marcadas muito mais pelo que o que não fazer do que fazer ou de construções tão genéricas que não servem de norte para as ações). Nessa perspectiva é que a mera apresentação é condição suficiente para a sua interiorização. Parente dessa é a perspectiva impositiva que trata  a apresentação com uma única via (professor e escola) em que se desconsidera que que possa haver outras vozes - a do aluno. Digamos que essas duas perspectivas estão para o universo escolar como as tábuas da lei do Antigo Testamento. Já na perspectiva propositva considera que há outro lado - o aluno e o mobiliza  para participar, tematizando o que é necessário garantir,mais como princípios de convivência do que listas exaustivas que pretendem regular todo o comportamento escolar - que convenhamos, não é nem desejável, tão menos possível.  Não são escolhas conscientes, mas traduzem as crenças  (as mais difícies de serem alteradas na formação dos docentes) ou no projeto educativo das instituições.

Construindo outra prática
Para se construir outra prática - mais coerente com as necessidades de alunos e professores- é necessário que o projeto de formação proponha um duplo movimento. Com os docentes (nas chamada Semana Pedagógica) a sua voz possa ser escutada nas discussões sobre princípios de convivência - numa perspectiva, mais propositva do que impositiva. Ao mesmo tempo colocar os professores para refletirem sobre esse momento com os alunos - o que tem sido feito, como tem sido feito e o porquê tem sido feito.



Indicações 
Estrela, M T  _Relação Pedagógica : disciplina e indisciplina em aula. ED Porto - capítulo Os primeiros dias de aula.

Protagonismo infantil: co-construindo significados em meio ‡s pr·ticas sociais Sergio Fernandes Senna Pires Angela Uchoa Branco Universidade de BrasÌlia, BrasÌlia-DF, Brasil
http://escolastransformadoras.com.br/wp-content/uploads/2015/09/PIRES-e-BRANCO.-Protagonismo-Infantil1.pdf